Saí do prédio, e vi aquelas pessoas nas janelas do mesmo , trabalhando, correndo de um lado para o outro, sempre muito ocupadas, pensando no pagamento do final de mês! Olhei para as minha mãos, e as vi suadas,levante a cabeça e olhei para o céu! Pássaros! Que lindos, voando livres! Cheios de vida! Olhei novamente para o prédio e me senti honrada por não estar alí, sendo infeliz, me matando de tanto trabalhar e sem tempo para gastar a miséria que ganharia num lugar como aquele! Tendo que ser quem eu não sou, pra ganhar um dinheiro de merda, que nunca me traria aquilo que mais me fazia falta : Felicidade! Cuspi no chão, e saí caminhando , sem olhar pra trás. Apesar de ser bastante contraditório com tudo o que eu sempre desejei , foi dessa maneira que eu me senti. Eu já não tinha mais nem o dinheiro da tequila, de qualquer forma não podia beber, ainda ia ter que voltar para o trabalho. Resolvi andar mais, nada de ônibus, andar e pensar sempre é bom. No caminho para a lanchonete pensei em várias coisas, até que meu leve pensamento chegou na minha caixinha, por que me preocupar tanto com essa porra de editora? Se me quiserem será ótimo, se não quiserem azar o deles ... bem, na verdade é azar meu, mas não quero pensar assim agora. Cheguei na lanchonete e fui logo vestindo meu uniforme, Messias me olhava de canto de olho, doido pra me infernizar, mas com seu Alberto alí não podia nem pensar em fazer isso. Entrei no vestiário pra guardar minha bolsa e vi Inara sentadinha no banco soluçando e enxugando as lágrimas com o avental, por um momento fiquei me questionando do que eu deveria fazer por aquela menina tão triste, percebi: nada. Sentei-me ao lado dela e segurei sua mão gelada e molhada, ela me olhou e eu iniciei uma conversa que não fazia idéia de onde ia parar.
- O que há, Inara?
- Olga ... eu ... nada não.
Me levantei para sair do vestiário, e dei dois passos, o soluço de Inara me paralisou e decidi voltar e sentar novamente, sentei e fiz uma sugestão que nem eu mesma esperava:
- Podemos conversar quando acabar o expediente?
Inara me olhou e balançou a cabeça vagarosamente , fazendo sinal de afirmação. Quando saí do vestiário percebi que tinha feito uma grande cagada, o que eu ia dizer para aquela moça? Quem sou eu para querer aconselhar outras pessoas? Puta merda, esqueci completamente do que já tinha planejado para aquela noite, o bar do Bill... Ah é, não tinha grana para beber mais durante a semana. Então seria isso mesmo, ouviria o que Inara iria me dizer, e depois só Deus sabe.
Ao fim do expediente não vi Inara, olhei no vestiário e no banheiro e ela não estava. Não fiz tanta questão de procurar, não tinha nada para dizer aquela moça chorosa. Saí e segui para minha casa. No caminho lembrei da minha caixinha, oh sim! Minha caixinha de madeira, com os números e a fotografia, com tantas coisas acontecendo esqueci completamente do mistério da pequena caixa. Ao chegar em casa subi bem apressada, sem olhar para os lados, para não ter a infelicidade de que alguém viesse me cumprimentar e assim me fizesse perder tempo. Cheguei no meu apartamento jogando a bolsa no chão e indo direto para o quarto, procurando a caixa em baixo da cama, quando coloquei as mãos na caixa, ergui os olhos em direção a cabeceira da cama e vi a foto do bailarino,então a vontade de ligar para os números de telefone aumentou, segurei a caixa com força contra o peito e caminhei até a sala, disquei o primeiro número e assim que o sinal de chamada tocou , a minha campainha também tocou, não acreditei que mais uma vez eu estava sendo interrompida. Abri a porta com uma expressão bem irritada, mas quando olhei quem estava na porta, minha expressão mudou completamente, virou espanto total:
- Inara? O que faz aqui?
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